Lendo o texto do Danilo e os comentários que ele gerou, lembrei da formação da Assembléia Popular de Valença, que teve à frente principalmente o MST (que já trabalha em diversas localidade com a idéia de Assembléia Popular), o Psol, o Sepe e o Valença em Questão. Era início da ocupação das casas populares na Varginha, e a expectativa era grande em relação aos novos militantes que chegavam na Gisele Lima.
Nesta quarta fui ao lançamento de um livro no Rio, e conversava com um ex-militante do Movimento Estudantil. Falava com ele da minha birra com os estudantes, que ao partidarizarem as discussões, brigam entre si e não alcançam objetivos que poderiam ser unificados. Isso serve para toda a esquerda, que se atém mais às diferenças do que aos interesses comuns.
Esse amigo, ex-militante, disse que hoje é pior ainda, porque não conseguimos enxergar nada que unifique essas lutas. O processo do neoliberalismo, o Lula no poder e seu governo neoliberal, deixaram muitos desacreditados. As disputas internas dentro desses grupos só dispersam os interesses coletivos mais urgentes e mais importantes. O capitalismo e o neoliberalismo são bons no que fazem.
Cidadãos que moldem o seu próprio destinoNo texto, Danilo fala da importância dos movimentos de esquerda se unirem na busca por uma sociedade mais justa. Não só em Valença, mas no Brasil, temos uma injusta distribuição de renda. Temos umas das economias mais dinâmicas do mundo (ficamos atrás apenas dos oito grandes, integrantes do G8), mas apresentamos índices de exclusão e de miséria, ou seja, de injustiça social, entre os maiores do mundo. De acordo com relatório do Banco Mundial, o Brasil é o país com o maior grau de concentração de renda no mundo. Os 10% mais ricos tem quase a metade da renda (48%) e os 20% mais pobres detêm apenas 2%. Nosso 1% mais rico é mais aquinhoado proporcionalmente que o 1% mais rico dos Estados Unidos e da Inglaterra.
Temos que superar esse obstáculo, criado pela forma como se dá o processo econômico de globalização, extremamente competitiva e nada cooperativa. É preciso pensar em uma forma de cidadania onde os cidadãos tenham capacidade de moldarem seu próprio destino, em consonância com o destino comum da humanidade.
Essa superação passa por todo o país, e claro, por Valença, que deve se garantir um futuro autônomo, relacionando-se com o resto do mundo. Sem isso, viveremos atrelados ao destino decidido por outros, omitindo-nos a dar uma colaboração singular ao futuro comum da humanidade. É um conjunto complexo de ações, que devem ser iniciadas o mais rápido possível.
Novo rumo, mais humano e solidárioTalvez o grande desafio seja descobrir a forma de transformar as massas anônimas, deserdadas e manipuláveis, em cidadãos conscientes e organizados, entendendo por cidadania o processo histórico-social que capacita a massa humama a forjar condições de consciência, de organização e de elaboração de um projeto e de práticas no sentido de deixar de ser massa e passar a ser povo, como sujeito histórico capaz de decidir o seu próprio destino.
É a crença de que ainda há tempo para mudanças que pode reorientar nossa cidade em um rumo mais humano e solidário que motiva nossas reflexões e a permanência de nossas lutas. Os grupos sociais hegemônicos hoje controlam a sociedade não apenas pelos aparelhos coercitivos – polícias, presídios, repressão –, mas principalmente através dos aparelhos de hegemonia – TV, jornais, igrejas, sindicatos, etc.
Esses aparelhos de hegemonia, de coerção pelo convencimento, contribuem na formação política, intelectual e moral da sociedade. É o que podemos chamar de dominação ideológica. Mas é justamente nesse espaço do convencimento que os movimentos de esquerda devem trabalhar. Podemos pensar em processos que sejam contra-hegemônicos, no sentido de combater essa idéia hoje dominante, procurar formas de conscientização das pessoas em relação a suas condições de vida.
Organicidade aos movimentosO Estado procura – e na maioria das vezes com sucesso – assimilar a cultura popular e esvaziá-la de qualquer sentido contra-hegemônico e crítico que ela possua. Como exemplos podemos citar o funk das favelas cariocas, que foi apropriado pelo sistema e transformado e nada mais do que em um estilo de música de baixaria. E ponto. Pouco se sabe de um movimento que vem resgatando o caráter crítico do funk no Rio de Janeiro. Isso não interessa aos grupos sociais hegemônicos. Ou então a cultura hip hop, surgida como uma das mais pungentes críticas do sistema capitalista, hoje é tocada em boates como se fossem músicas apenas para dançar, sem crítica, descontextualizando a cultura hip hop (que envolve, além do rap – música – o grafite, o break e o mestre de cerimônias – MC).
Precisamos pensar em ideologias orgânicas, que são historicamente necessárias, uma ideologia que se transforma na perspectiva de dar respostas aos processos políticos dos sujeitos. E não uma ideologia arbitrária. Essa ideologia orgânica se faz necessária na medida em que cria junto às massas o modo de consciência, determinando os interesses de determinado grupo ou classe social.
O grande problema é como colocar em prática toda essa “teoria”, como fazer com que as massas cumpram esse papel revolucionário. Uma perspectiva colocada pelo pensador italiano Antonio Gramsci, seria que os partidos políticos realizassem esse papel de representar a sociedade e seus interesses, encarnando a vontade coletiva. Mas o que vemos hoje são esses aparelhos de hegemonia esvaziados de pessoas que possam influir na busca pelos interesses da maioria. Em Valença, os partidos de esquerda são esvaziados e muitas das vezes nada fazem. Para piorar, entre si existem poucas possibilidades de alianças ao entorno de projetos. Os partidos são formados por pessoas, e as pessoas se conhecem, têm problemas pessoais, não gostam disso ou daquilo outro, e nada de conversa civilizada. Já é tempo dos partidos acabarem com isso em nossa cidade.
A mobilização em Valença
Escrevem nos comentário aqui no blog de que o VQ deveria fazer isso ou aquilo. Em alguma medida, isso chega a ser irritante. Porque o VQ tem que fazer isso sozinho? As pessoas acham que um grupo de jovens, que trabalham, estudam, têm uma vida pessoal têm como resolver os problemas de Valença – e se não o fazem, é motivo para críticas severas. Temos consciência que sozinhos não vamos fazer nada. Mas faltam apoios. Grande parte do que lemos nos comentários são críticas a deficiências do movimento. Mas pouco pensam em colaborar, ou em demonstrar caminhos a serem seguidos.
Mas minha crença é que as pessoas têm que se envolver. O grande problema é que as pessoas, quanto menos têm, mais se preocupam em saber o que elas vão ganhar com isso. E no curtíssimo prazo. Uma barra tentar convencer as pessoas. Por isso levo fé hoje em nossa cidade na Ocupação Gisele Lima, que possui uma organização capaz de mobilizar algumas pessoas, do Valença em Questão, que há quatro anos tem um grupo firme, ao MST, que em nossa cidade mobiliza uma galera, ao SEPE, que mobiliza os professores. Mas o grande problema é que nesses quatro “grupos”, muitas pessoas se “repetem”.
E é pensando nessa perspectiva de mudança, de mostrar o que não é mostrado, de valorizar o que não é valorizado, de dar voz a quem é emudecido pelo sistema, que o Valença em Questão se mantém firme, e sempre aberto a quem se interessar a colaborar conosco. Dentro ou fora do movimento.