terça-feira, 12 de abril de 2011

Realengo: reflexões urgentes

Por Thiago Ansel, do Observatório Notícias & Análises

Na última quinta-feira (7), o Brasil começou o dia impactado pela enxurrada de notícias sobre um tipo de crime até então associado à cultura norte-americana. Wellington de Oliveira, de 23 anos, entrou na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Zona Oeste da cidade, e protagonizou um massacre com todas as características daqueles que vêm ocorrendo em colégios e faculdades dos Estados Unidos, desde a década de 1960.
A escola Tasso da Silveira

Ainda atordoados pelo massacre, a população, a mídia, as autoridades e especialistas de diversas áreas passam a especular sobre as causas da tragédia, tentando reunir as peças de um quebra-cabeça nada simples. Entre os temas mais recorrentes estimulados pela tragédia de Realengo estão o desarmamento e a violência nas escolas.

Violência nas escolas
O coordenador geral do Sindicato dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (Sepe-RJ), Danilo Serafim, afirma que a falta de segurança nas escolas teria contribuído em muito para o massacre. Serafim diz que o Sepe vem denunciando situações de violência nas escolas há anos. “O que precede o estado mental do atirador é que há mais de cinco anos temos denunciado a violência intra e extra-muros da escola. Escolas em linhas de tiro, escolas usadas por milícias ou pelo tráfico como depósito de armas e drogas. Esta tragédia de Realengo é um absurdo. É verdade que há nuances como o fato de o atirador ser um ex-aluno. Mas, devemos nos perguntar como uma pessoa que não é funcionário e não é pai de aluno pode entrar na escola dessa forma?”, questiona.

O Sepe convocou uma paralisação extraordinária (24 horas) das escolas municipais do Rio no dia seguinte ao massacre. Além disso, foi realizado um ato público na Cinelândia contra a violência nas escolas. O sindicato estuda ainda a possibilidade de entrar na Justiça contra as autoridades municipais (responsáveis pela rede municipal de ensino) e estaduais (responsáveis pela segurança pública) responsabilizando-as criminalmente pela chacina.

Desarmamento
O episódio ocorrido na Tasso da Silveira também reacende os debates sobre o desarmamento. Na última terça, o presidente do senado, José Sarney, apresentou aos líderes de casa uma proposta de reedição do referendo sobre o desarmamento. A primeira consulta pública deste tipo aconteceu em 2005 e resultou na permanência da autorização do comércio de armas de fogo no território nacional.


Entidades, movimentos e políticos pró-desarmamento defendem que a facilidade com que Wellington teve acesso às armas pode ter sido um fator decisivo para o desfecho trágico do ataque. O Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, anunciou, no mesmo dia do crime, uma nova campanha pelo desarmamento. Em declaração dada ao jornal O Globo, o ministro afirmou que há uma cultura das armas a ser enfrentada. “Acho que temos uma cruzada pela frente. Temos de lutar muito fortemente contra essa cultura do armamento, contra essa cultura que faz com que pessoas, muitas vezes fora de suas faculdades mentais, cometam esse tipo de atrocidade”, disse Cardozo.

Wellington de Oliveira utilizou dois revólveres de fabricação nacional, um calibre .32, roubado há 18 anos de um civil, e um calibre .38, com numeração raspada. De acordo com dados divulgados pelo Viva Rio, 93% das armas utilizadas em crimes são nacionais. O dado desmente a tese de que as armas seriam contrabandeadas do exterior.

O consultor em Segurança Pública e Direitos Humanos, Marcos Rolim, afirma que as armas de mão são as verdadeiras “armas de destruição em massa”. Ele defende a criação de uma lei federal que restrinja o uso deste tipo de armamento apenas a policiais. “Nenhum tipo de arma mata mais no mundo do que revólveres e pistolas, exatamente pela sua disseminação nas sociedades contemporâneas e pela facilidade de acesso. Ou será que é uma coincidência que o país com maior número de massacres em escolas, os EUA, seja também o país mais liberal com relação ao porte de armas?”, questiona.

Nos Estados Unidos, onde 80% dos homicídios em escolas foram praticados com armas legais, o total de mortes por armas de fogo gira em torno de 12.000 anualmente. No Brasil, que viveu o primeiro caso de ataque a uma instituição de ensino por atirador, o número de mortes por arma de fogo chega a 50.000 por ano.

Conclusões precipitadas
Poucas horas depois do ataque, vários veículos da imprensa tiveram acesso a uma carta assinada por Wellington, na qual ele dava instruções para o que deveria ser feito com seu corpo. Algumas linhas da carta onde o atirador faz referências vagas a tradições religiosas foram suficientes para que alguns precipitados ligassem Wellington ao Islamismo. A hipótese foi ainda reforçada por diferentes noticiosos, após a divulgação de uma entrevista com a irmã do assassino, na qual ela declarou que Wellington falava “sobre esse negócio de muçulmano”, além de ter deixado a barba crescer até bem pouco antes do massacre. Também foram encontradas na casa do atirador anotações em que ele afirma ler o Alcorão e meditar sobre os atentados ocorridos em 11 de setembro 2001.

Segundo a psicóloga, especialista em interculturalidade, Maria Beatriz Rodrigues, a associação de Wellington com a fé muçulmana é precipitada. “A informação de que o atirador seria muçulmano é baseada em depoimentos de familiares. Não existem evidências de que ele pertencesse a uma organização religiosa dessa natureza. A própria carta suicida pode ser interpretada como religiosa, mas não necessariamente muçulmana. Por exemplo, na carta ele menciona um Jesus que deve ainda chegar e essa crença pertence a outras religiões. No islamismo Jesus existe, é um dos profetas, uma figura importante, mas não é o Messias”, observa.

A psicóloga acredita que o crime tenha sido motivado mais por distúrbios de personalidade do assassino do que por convicções religiosas extremistas. “O atentado parece ter sido motivado por outros fatores. O fato de ele ter retornado à escola para o massacre, parece mais uma ‘Columbine’ do que um ataque terrorista de motivação religiosa. A insistência da mídia brasileira na identificação muçulmana do atirador contribuiu para essa certa ‘islamofobia instantânea’”, pondera Rodrigues.

A Federação Muçulmana divulgou uma nota de repúdio ao que chamou de “ato insano e inexplicável”, esclarecendo que o atirador não é muçulmano e não tem qualquer vínculo com as mesquitas e sociedades beneficentes mantidas pela comunidade islâmica, em todo o país. A nota diz ainda que a relação do assassino com a religião é fruto de declarações feitas por seus parentes, já desmentidas pelos próprios.

O consultor Marcos Rolim: "Nenhum tipo de arma mata mais no mundo do que revólveres e pistolas, exatamente pela sua disseminação nas sociedades contemporâneas e pela facilidade de acesso"
O consultor Marcos Rolim

Saúde mental
Muito se especula também sobre as motivações psicológicas do atirador. Segundo o psicólogo e professor da Universidade Federal de Sergipe, Rogério Henriques, é impossível diagnosticar um paciente que já esteja morto. “Não se pode dar um laudo a alguém sem entrevistá-lo, senão, ficamos na especulação. Um exemplo clássico é o diagnóstico de psicose conferido pelo psicanalista francês Jacques Lacan ao escritor irlandês James Joyce. A avaliação constitui uma hipótese, já que Joyce e Lacan nunca sequer se encontraram, muito menos estabeleceram um vínculo necessário ao diagnóstico e manejo do tratamento”, esclarece Henriques.

O psicólogo chama atenção para o acesso restrito a tratamentos como a psicanálise, além de apontar para o lugar secundário que a saúde mental ocupa na visão dos gestores públicos de saúde. “Penso que a psicanálise é uma terapêutica das mais eficazes no acompanhamento de casos de psicoses. Ela não é democratizada em função de não ter o impacto quantitativo que os gestores almejam nas políticas públicas de saúde, além de ter um custo muito alto”, ressalta.

6 comentários:

Anônimo disse...

"Mas, devemos nos perguntar como uma pessoa que não é funcionário e não é pai de aluno pode entrar na escola dessa forma?”, questiona."
Junto-me à voz do Coordenador do SEPE e faço a mesma pergunta. Quanto ao desarmamento seria o ideal, porém, o ESTADO brasileiro não tem competência para tal, não nos daria a contrapartida necessária. Não haveria fiscalização e nem o desarmamento por parte dos bandidos, pura balela.
A questão do fanatismo religioso é ridícula e quanto ao não tratamento mental por parte do ESTADO é a pura realidade. Acrescento aqui uma opinião. Acredito que o esfacelamento da família contribui muito para a violência. Seres humanos são largados por aí, à própria sorte. Os professores lapidam a pedra, mas o diamante tem de vir pronto de casa.

Anônimo disse...

Esses "profisionais" da educação, tem todo direito de reivindicar melhoes condições de trabalho, pois é justo, porém, contudo e todavia, deveriam, também, e seguindo a mesma toada, ser mais profissionais quanto ao cumprimento de suas obrigações, por mais simples e complexas que sejam. Mas como esse rapaz consegue entrar na escola e ir nas salas de aula???? Quem o autorizou??? Qualquer pessoa tem este passe livre???? Acho que deveriam identificar tal pessoa que autorizou e denuncia-la como participe ou co-autora dessa tragédia! Lembrem-se profissionais da educação, junto com direito tem direitos e obrigações intrinsecos a função que ocupam! Pobre das crianças deste estado.

Anônimo disse...

Se já vem pronto... lapidar o que??

Anônimo disse...

Ao anônimo ai de cima, vou ser mais direto. O que quis dizer é que tenho certeza de que o problema é bem maior. A sociedade (ou melhor, os pais, ou responsáveis, ou quem quer que seja) estão transferindo suas responsabilidades para a Escola, para os Professores, ou será que é normal aluno dar porrada em professor, dar porrada na menina, combinar briga pela internet na porta da escola, passar de ano de qualquer jeito sem saber nem falar, que dirá ler.No meu mundo isto é anormal, coisa de bicho. A boa educação vem do berço, sacou ? E boa educação, na infância não tem nada a ver com grana não. Foi isto que eu quis dizer com a questão do lapidar. Agora, acho que no fundo você até que tem razão. Se a sociedade (ou os pais, etc...) entregam para os professores pequenos seres humanos que já vem ao mundo destruídos, mal amados, entregues ao acaso, criados sem regras e sem respeito pelo próximo, bem...lapidar o quê ? Soma-se esta situação à inércia e ao descaso do Estado brasileiro e o futuro, bem o futuro...

Anônimo disse...

Eu adoro essas besteiras que os brasileiros gostam de falar depois das nossas tão frequentes tragédias sociais, até parece futebol de tanta opinião. Nós estamos no limite. Não dá mais pra suportar a impunidade. Para a sorte de muitos, o brasileiro e medroso e covarde, fruto dos anos de ditadura, e por isso não tem moral de entrar em um prédio público como uma prefeitura ou camara de deputados e descarregar uma arma, mas faz isso com criancinhas pobres que ninguém vai sentir falta. Culpa de quem vota em fanfarrão.

lacaniana disse...

Espero voce e seus leitores na
segunda 23 de maio 2011 na Enfermagemda USP
( perto do Hospital das Cllinicas da USP)
as 19 hs, maiores informações
forumpopulardesaudesp@gmail.com
Paulo Roberto Spina, do Fórum Popular de Saúde de São Paulo


Ola Anderson
Eu me chamo Aida e sou psicanalista lacaniana faz trinta anos. E penso que posso inserir certas considerações nesse debate que voce expoe.
A tragedia que aconteceu na escola de Realengo deve-se exclusivamente a falta de politicas publicas na área de saude, principalmente na area de saude mental ! vou traçar um paralelo para te convidar ( caso voce esteja em Sampa) para vir debater na Escola de Enfermagem da USP com o Forum de Saude - um movimento popular que se debruça e faz ações para cobrar saude - Incrivel mas aqui em São Paulo temos acesso a todos os conhecimentos que foram ate aqui desenvolvidos pelo saber humano para tratar a saude, mas a politica do lucro impera impedindo que qualquer brasileiro ( inclusive quem paga duas vezes - via os planos de saude) tenha acesso ao seu direito inalienável da saude
Voltado à proposta do paralelo imagine um aparelho cardiaco, pois bem, ele, em cada pessoa, vem com uma estrutura.. uma mais eficiente para a tarefa e outras que dependem de tratamentos e medicações. Ora, um cardiaco grave por falta de acesso a um tratamento e/ou à medicação pode, ao dirigir um carro, um avião passar mal e matar muitas pessoas...pode !
Voce sabe que o discurso personalista ( vi sua posição marxista - "sintoma burgues é sustentar uma explicação que não muda a realidade danosa!" Marx) encobre as responsabilidades dos políticos e autoridades publicas diante dos problemas de saude juntando mais a falta de conhecimento sobre as deficiencias psiquicas ( psicose e autismo) ! forma-se uma gororoba social dificil de engolir e pior monta-se o discurso que serve para fortalecer a parte da sociedade que apavorada reage sem senso critico e com a virulencia de quem tem o medo sem controle...o inconsciente vaza, faz uma especie de sangramento para fora do consciente tanto no neurotico como no deficiente psquico - os autistas e os psicóticos, permitindo a satisfação dos surtos que podem ser prerrogativas ate das autoridades que fazem construções mirabolantes sobre detectores de metal e 600 psicologas voluntarias ( !) de plantão para fazer técnicas paliativas...mas caps infantil e de alcool e drogas...orientação para as professores encaminharem...
Fiquei extremamente choca com a violencia das autoridades que formaram fileiras com discursos que levavam ao linchamento de um morto...de uma crueldade atroz mas muito eficiente para ofuscar a responsabilidade deles nesse caso
Mas conheço de perto o sofrimento dos professores que tentam encaminhar seus alunos deficientes psiquicos, principalmente os que apresentam graves sinais de sofrimento...posto de saude ? hospital? caps? uma ladainha de impossibilidades... fora que quando as professoras e/ou os familiares ja enxergam os sintomas os deficientes psquicos estão com seus sintomas aparentes o que pode ser um sinal de alto sofrimento e de imediata solicitação de tratamento ... e essas pessoas ja passaram por pediatras e clinicos que tambem muito pouco podem fazer...ja viu quantos caps infantis existem no país?...bom esse é o começo espero de um debate com mais decisões de quais medidas serão solicitadas das autoridade publicas diante dos Órgãos de Saude publica e dos convenios de saude...ah...mas ai estão outras estórias pavorosas... que podemos lidar negando ou podemos nos autorizar e debruçarmos sobre os problemas que nos tiram a vida
Espero voce e seus leitores na
segunda 23 de maio 2011 na Enfermagemda USP
( perto do Hospital das Cllinicas da USP)
as 19 hs, maiores informações
forumpopulardesaudesp@gmail.com
Paulo Roberto Spina, do Fórum Popular de Saúde de São Paulo