sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Valença Bizarra Parte 2: o Conselho de Classe dos Ceifadores

Ah! Agora acabou a colheita! Realizado o Conselho de Classe Final despachamos as almas que progrediram para o próximo nível ou estacionamos aquelas outras que não alcançaram o conhecimento mínimo para ascender ao nível mais alto. Como sou um Ceifador de primeira viagem, toda reunião traz consigo uma novidade que eu tento compartilhar com os leitores através de minhas interpretações sobre os fatos. Sem mais delongas, vamos começar.

Nós, ceifadores, confundimos o direito das crianças ao Ensino na Escola, que estou completamente de acordo, com a idéia de que toda criança tenha que passar de ano letivo ao fim do ano. Poucos são aqueles que querem carregar a responsabilidade de reprovar um aluno. Pude comprovar nossa incompetência com os argumentos utilizados para passar o aluno “na marra”. Falamos da vida privada do discente, da comunidade, do futuro. Só não conseguimos, e não fazemos a seguinte pergunta: “o aluno em questão conseguiu apreender aquilo que foi ministrado nas nossas aulas?”

Passar um aluno “na marra” ocorre quando nós esgotamos todas as possibilidades para que o mesmo consiga os pontos necessários. Oficialmente, damos o nome de “decisão do Conselho”. É nesse momento que ocorre às tais perguntas que, claro, nos sensibilizam e fazem com que relativizamos nossa própria matéria: “Afinal, o que são 5, 10, 15, 20 pontos para um garoto da periferia da cidade.” “Vai que ele é reprovado, se revolta e saí da escola.” Muitas possibilidades aparecem em nossa cabeça e, naquele sentimento de compaixão pelo semelhante, nós o liberamos de repetir o ano. No popular, empurramos o problema para frente.

Antes de prosseguirmos temos que informar as regras do jogo, mais conhecido como sistema de avaliação: o aluno é considerado APTO em duas condições: ter obtido, ao longo de 4 bimestres, 200 pontos e ter marcado uma freqüência superior à 75 por cento. Aqueles que não conseguiram somar 200 pontos fazem, em dezembro, uma recuperação final valendo 100 pontos com a matéria de todo o ano. Sim, não escrevi errado, o sujeito em recuperação deve fazer uma prova com o conteúdo de todo ano. Fico imaginando aqui um aluno meu estudando toda a matéria de História em duas semanas. Realmente, eu não queria estar na situação dele...

Também sabemos que a política educacional brasileira baseia-se no equilíbrio entre idade e escolaridade como forma de garantir financiamentos internacionais para o setor educacional. No entanto, o primordial é garantir que os alunos aprendam os conteúdos, qualquer ceifador sabe muito bem que nossos alunos podem sair da escola sem saber ler e escrever. Volta e meia ficamos nas mais baixas posições em comparação com os números de outros países.

Durante o ano de 2008 fui o ceifador de todas as séries do ensino Fundamental e, em minha opinião, a perspectiva de empurrar o problema pra frente, obviamente, não resolve nada. Pior, isso possibilita a compreensão dos próprios alunos concluintes do ensino fundamental da existência de uma “manha” de não precisar estudar para passar de ano, já que, no final, “todos passam”. Dentro desse contexto, “estudar” torna-se um algo negativo, “estudar” e para os alunos que não sabem “enganar o professor”. Já na primeira colheita escutei tal afirmação.

Mas então? Confesso que perdi a colheita. Que não estava preparado para encontrar a educação nesse estado. O amigo leitor que se preocupa com a educação e quer ter uma noção do que se passa numa sala de aula hoje multiplique a sua opinião por mil. Você terá uma impressão. Numa oração: “Perdemos a guerra...”

Um comentário:

Fael disse...

É ceifador, perdemos a guerra.

A democratização da educação tirou a qualidade dela. Outro dia ouvi uma coisa interessante de um professor aposentado, ele disse o seguinte:

"ao democratizar a educação parece que os setores populares tiveram uma vitória, mas o contra-ataque das elites está sendo faltal. Pois as elites abandonaram a escola pública e se refugiaram na privada e o modelo de política educacional nas escolas públicas leva a uma precarização tamanha nestas, que elas acabam se tornando uma instituição que aglomera e mantém ocupado os alunos, mas que não gera nenhum tipo de aprendizagem (ou seja, não cumpre sua função).

"Desta maneira os filhos das classes populares continuam sem o direito ao ensino e, pior, têm mais dificuldade de perceber que não esta sendo dado a eles o direito a este ensino."

OBS: segunda-feira é o meu dia de ceifar o que seria colheita.