terça-feira, 16 de junho de 2009

As cotas desmentiram as urucubacas

Elio Gaspari

Quem acompanhasse os debates na Câmara dos Deputados em 1884 poderia ouvir a leitura de uma moção de fazendeiros do Rio de Janeiro:

"Ninguém no Brasil sustenta a escravidão pela escravidão, mas não há um só brasileiro que não se oponha aos perigos da desorganização do atual sistema de trabalho."

Livres os negros, as cidades seriam invadidas por "turbas ignaras", "gente refratária ao trabalho e ávida de ociosidade". A produção seria destruída e a segurança das famílias estaria ameaçada.

Veio a Abolição, o Apocalipse ficou para depois e o Brasil melhorou (ou será que alguém duvida?).

Passados dez anos do início do debate em torno das ações afirmativas e do recurso às cotas para facilitar o acesso dos negros às universidades públicas brasileiras, felizmente é possível conferir a consistência dos argumentos apresentados contra essa iniciativa.

De saída, veio a advertência de que as cotas exacerbariam a questão racial. Essa ameaça vai completar dezoito anos e não se registraram casos significativos de exacerbação. Há cerca de 500 mandados de segurança no Judiciário, mas isso nada mais é que a livre disputa pelo direito.

Num curso paralelo veio a mandinga do não-vai-pegar. Hoje há em torno de 60 universidades públicas com sistemas de acesso orientados por cotas e nos últimos cinco anos já se diplomaram cerca de 10 mil jovens beneficiados pela iniciativa.

Havia outro argumento: sem preparo e sem recursos para se manter, os negros entrariam nas universidades, não conseguiriam acompanhar as aulas, desorganizariam os cursos e acabariam deixando as escolas.

Entre 2003 e 2007 a evasão entre os cotistas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro foi de 13%. No universo dos não cotistas esse índice foi de 17%.

Quanto ao aproveitamento, na Uerj, os estudantes que entraram pelas cotas em 2003 conseguiram um desempenho pouco superior aos demais. Na Federal da Bahia, em 2005, os cotistas conseguiram rendimento igual ou melhor que os não cotistas em 32 dos 57 cursos. Em 11 dos 18 cursos de maior concorrência, os cotistas desempenharam-se melhor em 61% das áreas.

De todas as mandingas lançadas contra as cotas, a mais cruel foi a que levantou o perigo da discriminação, pelos colegas, contra os cotistas.

Caso de pura transferência de preconceito. Não há notícia de tensões nos campus. Mesmo assim, seria ingenuidade acreditar que os negros não receberam olhares atravessados. Tudo bem, mas entraram para as universidades sustentadas pelo dinheiro público.

Tanto Michelle Obama quanto Sônia Sottomayor, uma filha de imigrantes porto-riquenhos nomeada para a Suprema Corte, lembram até hoje dos olhares atravessados que receberam ao entrar na Universidade de Princeton. Michelle tratou do assunto em seu trabalho de conclusão do curso. Ela não conseguiu a matrícula por conta de cotas, mas pela prática de ações afirmativas iniciada em 1964. Logo na universidade onde, em 1939, Radcliffe Heermance, seu poderoso diretor de admissões de 1922 a 1950, disse a um estudante negro admitido acidentalmente que aquela escola não era lugar para ele, pois "um estudante de cor será mais feliz num ambiente com outros de sua raça". Na carta em que escreveu isso o doutor explicou que nem ele nem a universidade eram racistas.

Fonte: sítio da UNE

Um comentário:

Fabiano Avila disse...

Gostaria de deixar alguns comentários sobre este “post” e uma indicação de leitura para aqueles que se interessarem.
Lembro-me de quando estava no meio da faculdade de Direito e a “questão” das quotas entrou na agenda dos debates. Os aspirantes a juristas, muito preocupados com a adequação de tais ações afirmativas, discutiam intensamente. Ou pelo menos assim supunham. Os argumentos giravam sempre em torno do princípio da igualdade num primeiro plano, e sobre a adequação constitucional. Depois, quanto a critérios de justiça. Por fim, o tema caía na terra dos resultados sociais das quotas e as conseqüências para a nossa “democracia racial”. O que chamava a atenção nem eram os argumentos em si, mas as formas de defesa. Uma colega queria saber por que ela, que pagou cursinhos caros, foi mantida pela família e dedicou-se com afinco deveria disputar em desigualdade de condições com “alguém que nem consegue ler um jornal!”. Este comentário foi seguido de outro, em contraponto: se disputássemos em reais igualdades de condição, é bem possível, não se sabe, mas é bem possível que oitenta porcento daquela turma não estivéssemos ali sentados.
E sobre a defesa da colega e a alfinetada do segundo comentário pego o gancho para deixar a indicação de uma excelente palestra do sociólogo Pierre Bourdieu, publicada em português no livro Questões de sociologia. Lisboa, 2003. p. 277-281, mas – viva a internet! – disponível em http://adrianocodato.blogspot.com/2008/12/o-racismo-da-inteligncia.html

Um grande abraço.