segunda-feira, 12 de novembro de 2007

"BONITO É QUEM FAZ BONITO, RAPÁ!"

Quem assistiu ao Programa Roda Viva, com Doutor Alegria Patch Adams, teve uma experiência magnífica, uma verdadeira aula sobre como levar uma vida alegre e correta num mundo que cada dia mais se afunda na lama e na crocodilagem. Embora a grande maioria do povo valenciano não receba o sinal da TVE/RJ – por motivos escrotos que nós estamos carecas de saber (eu mais do que vcs!) – ainda assim vale ressaltar o revigorante relato que o médico norte americano nos deu naquela noite de segunda-feira (5/11/07).

Hunter “Patch” Adams até os 40 anos foi um porra-louca sem precedentes (e o é até hoje!), que de repente resolve se internar num hospital psiquiátrico, onde descobriu que queria ser médico. Dois anos depois estava estudando na Virginia Medical University e, embora seu rendimento acadêmico fosse excelente, quase é expulso da faculdade por suas posições “pouco ortodoxas” em relação à Medicina. Tendo como princípios “Alegria, Humor, Amor, Cooperatividade e Criatividade”, ainda em sua época de faculdade iniciou um projeto para tratar os pacientes de forma mais humana, sem os preceitos de “distância profissional” instituído, sendo ele o exemplo vivo de que uma relação mais próxima com o paciente é capaz de fazer a diferença, e que o papel do médico não é simplesmente evitar a morte e sim proporcionar uma melhor qualidade de vida ao paciente, tratando a maior das doenças: a indiferença.



Mas o que mais me atraiu na entrevista foi quando perguntado se sua aparência (ele tem mais de 70 anos, cabelo e bigodes compridos, usa um garfo pendurado numa orelha e se veste e comporta como um pinel) não assustava àqueles menos afeitos à sua heterodoxia. O Doutor Alegria respondeu: “não me julgue pela minha aparência e nem pelas minhas roupas, me visto assim justamente para chamar a atenção para aquilo que faço. Julgue-me pelo meu proceder... Bonito é aquele que faz bonito!”.

Como a proposta do VQ desse mês é debater a FAA, que tem feito feio em algumas situações (fechamento de cursos, baixa avaliação, perda de professores...), é justo que lutemos para devolver beleza e excelência ao nosso único centro universitário. É lógico que eu não estou desmerecendo o trabalho daqueles profissionais que ainda lutam para soerguer a FAA, e nem tenho a pretensão de apresentar uma panacéia, mas uma certeza eu tenho: a FAA só vai se tornar autônoma e sustentável novamente se a sociedade se sentir parte dela e parar de vê-la com indiferença e descomprometimento.

E como chegar a isto? Bom, se eu falar em “democratizar o acesso à universidade”, muita gente vai dizer “lá vem ele com o discurso caduco da esquerda – maldito comunista!” Então vou abordar a mesma coisa, mas por ótica diferente: será que a maioria da sociedade valenciana tem condições de pagar por uma faculdade a média R$ 500,00 mensais, durante quatro ou mais anos? É lógico também que a FAA não tem como resolver este problema social sozinha, mas há de se pensar, em estreita parceria com os poderes públicos, uma solução para lá, num momento em que todos os municípios vizinhos têm hoje algum centro universitário.

Poderia falar também sobre o notório problema do aparelhamento político e carreirismo que alguns cavaram na FAA; mas, daí viriam àqueles de novo falar: “- não disse, olhe a influência trotskista da IV Internacional no sectarismo deste escriba comedor de criancinha!”. Então, vou amaciar: será que se permitir à comunidade acadêmica (professores, funcionários e alunos) escolher diretamente os gestores e diretores das unidades, estes representantes não teriam mais compromisso com todos e menos com os poucos que se aproveitam daquela Instituição? O povo só vai achar a FAA “bonita” se ela fizer bonito em relação ao interesse coletivo e não ao enriquecimento e ao privilégio de alguns.



Mas, muita coisa já tem sido feita. Recentemente, os estudantes organizados reergueram a sua entidade central (DCE) e outros diretórios ainda resistem (DALUJA) ao modelo de sociedade do “pensamento único”. Os professores que lá trabalham – em sua grande maioria – também cumprem seus deveres com dignidade e não se furtam ao papel crítico que a atual situação da Fundação nos cobra.

E quanto aos dirigentes e agentes políticos? Estes deveriam ter mais coragem e propor soluções de fato eficientes. Não devemos ter medo de ousar: se a FAA dá prejuízo, que se ponha a Instituição à venda para um centro universitário de maior competência (agora eu embolei a cabeça dos meus detratores classistas, hein?) – A Universidade de Vassouras está logo ali do lado, crescendo que é uma beleza!

Mas bonito mesmo seria se iniciássemos uma campanha em toda Valença para comprarmos a FAA e entregá-la ao seu povo. Já pensaram? Uma campanha de arrecadação (já nos tiram tanto em impostos mesmo!) e depois de conseguido o dinheiro, a gente tornava a FAA uma Universidade Pública! Olha que beleza! Pois é, bonito é quem faz bonito.




* PS: Atualmente, Patch Adams toca a Fundação que criou e que já atendeu de graça mais de 15.000 pessoas sem seguro, nem recursos formais nos EUA, e hoje em dia possui uma lista de cerca de 1.000 médicos que se ofereceram a largar seus consultórios e se juntar à causa de Patch.

link para sua entrevista para a revista Veja(cusp!): http://www.copatch.com/internas/veja.html

2 comentários:

Estrela Solitária disse...

Que belo programa com o Patch Adams! Foi realmente de emocionar e de incitar a vontade de transformar a realidade na qual estamos inseridos.

Como é bom ver pessoas falando de amor, carinho, atenção, quando isso no mundo de hoje é banalizado e ridicularizado. Um mundo onde tudo deve ser suprimido em favor do poder de compra. Pra quê construir uma amizade se você pode alugar uma pessoa pra te ouvir durante uma hora?

A lógica do mercado é tão perversa que todo o discurso contrário é pormenorizado. Fazer manifestação é coisa do passado. Buscar construir projetos coletivos é tido como bravata de esquerdistas retóricos, que não conhecem a engrenagem de uma estrutura administrativa pública. Ser taxado de antiqüado, utópico e rebelde faz parte da construção deste pensamento único, do pensamento do consumo. Você é o que você pode comprar.

E, na FAA, está na hora sim de dizermos um basta no esquema do "deixa como está, afinal não tem mais jeito". Aposto que quando publicarmos nossa edição com artigos opinativos sobre a FAA, não faltarão comentários de que somos da turma do discurso bonito e da prática zero.

Porém, algumas destas pessoas se esquecerão de que a crítica é ferramenta fundamental e inicial do processo de reconstrução de algo que está errado.

Anônimo disse...

Otimo texto!

uma prova desse raciocinio do "bonito é quem faz bonito!" são os nossos ronaldinhos e suas belas mulheres...rs

Os caras conseguem ficar ate bonitos($$$), fazendo bonito dentro de campo.