quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Nós, os professores hipopótamos

Começou hoje (03/02/2010) no centro de eventos da FAA, a abertura do ano letivo municipal. Os professores da rede municipal de ensino foram reunidos para a palestra ministrada pelo senhor Serrano Freire com o título “Seja o professor que você gostaria de ter”.

O palestrante realizou sua conferência de forma didática e bastante organizada. O conteúdo da palestra motivacional, nas palavras do autor, era demonstrar a importância do professor desenvolver sua auto-estima. Geralmente, segundo Serrano Freire, os professores estabelecem uma concepção muito negativa sobre a sua profissão. Geralmente, eles só reclamam dos alunos e dos seus salários.

Para Serrano, é preciso virar o jogo contra o desânimo. Para isso é necessário tornar as aulas mais interessantes assim como tornar o contato entre o professor e aluno mais estimulante. Pode ser através de técnicas de relaxamento, de variações no tom de voz, de brincadeiras em sala de aula. Uma série de competências necessárias para a construção do professor do século XXI.

O ponto central da palestra de Serrano Freire: o desenvolvimento das novas competências individuais dos professores é a solução para a melhoria da educação. Não existiria nenhum tipo de problema (seja ele social, político, cultural ou econômico) capaz de resistir às novas capacidades do professor. Tentei colocar em prática os ensinamentos dados pelo palestrante pensando num problema que aflige a maioria dos professores.

Um professor de um município que tem como salário base o valor de R$ 487,39 centavos e trabalha numa escola do interior. O professor percebe que a estrada que leva até a sua escola não possui asfaltamento. Observa que o esgoto está a céu aberto. Qual a competência motivacional necessária para o tal professor?

Nosso professor chega à sala de aula e lá estão os seus alunos. O professor ao tentar ler a situação da turma observa que: alguns alunos não tomaram banho, outros estão dormindo em sala de aula e ainda há aqueles que estão morrendo de fome. Durante o recreio, nosso mestre escuta histórias sobre espancamentos, estupros, problemas de alcoolismo e drogas. A faculdade de licenciatura não preparou o seu profissional para enfrentar nenhum desses problemas. Nosso professor fica perdido, sem saber o que fazer.

Eis que a Secretaria Municipal de Educação de Valença convida o professor para uma palestra. Num gesto otimista, o professor acredita que o tema será algo relevante para a sua prática docente. Será uma palestra sobre violência nas escolas, sobre a desestruturação familiar, sobre a falta de infra-estrutura nas escolas. Nada disso. Elas contrataram uma palestra motivacional...

Palestra motivacional é a forma encontrada para as empresas de demonstrar que o buraco não é tão ruim como parece. Tudo é uma questão de superação individual. O clichê da palestra motivacional é aquele que fala que todos são especiais. A lenda é famosa: dos bilhões e bilhões de espermatozóides, você, caro ouvinte conseguiu nascer...

Durante o decorrer da palestra uma questão martelou minha cabeça: será que o nosso palestrante já entrou numa sala de aula? Ele me diz com toda a desenvoltura que o professor é capaz de melhorar a educação. No entanto, não vejo como a minha atuação docente pode fazer o que é de responsabilidade do poder público realizar. De que maneira a minha prática pode fazer com que as crianças se alimentem, que os vícios dos pais desapareçam ou que a rua seja asfaltada?

Confesso que não fiquei até o encerramento da palestra. O meu limite foi ultrapassado quando o palestrante convidou todos os professores a começarem a dançar ao som de uma música americana e usando o data show para reproduzir um hipopótamo dançando. Segundo ele, isso era uma atividade para superar o medo que impede o pleno desenvolvimento das novas competências. Um sentimento oceânico de vergonha alheia foi o resultado daquele espetáculo terrível. Parecia que eu tinha entrado num episódio bizarro dos Teletubbies ou que estava visitando a Bobolândia. Quatro anos de esforço na Universidade e vários livros para que, no final das coisas, observar os professores municipais valencianos se sujeitarem a virar massa de manobra. É triste perceber que a nossa secretaria não tem a mínima idéia das carências de seu professor. Eu tenho saudades de um outro Freire... Como chegamos a tal ponto?


14 comentários:

PMV disse...

Fica reclamando da condicao de professor. Pq nao sai e arruma outro emprego...HIPOCRITA... vai trabalhar...nao esta satisfeito pede demissao!

Fael disse...

Caramba, que loucura!!!! ainda querem que a educação melhore, contratam um professor que não faz idéia do que é a educação pública neste país para ensinar aos professores como devem educar a população.

Cara, é muita ignorância dentro da educação (ou do poder público), deve ser este o maior problema...

Lisérgio Virabossa disse...

Oremos para que os professores leiam Marx e ouçam Bob Dylan!!!!!!!!!!

SEPE disse...

Pois é, coincidentemente (ou não) a atual secretária municipal de educação, até ano passado era a secretária geral da FAA-CESVA.

Aquele belezura de FAA, que este ano não vai ter turma de direito, não vai ter turma de medicina...

Tudo farinha do mesmo saco, que vão pulando da FAA pra PMV e da PMV pra FAA, quando não fazem "estágio remunerado" no TCE.

Depois neguin (e branquin também) não sabem por que Valença tá assim.

Lamentável!!!!

João disse...

Lamentável a PMV não ter profissionais que não sabem, ou não querem saber, por mera "conveniência", as reais causas dos problemas na área escolar.
Isto é uma política podre de querer desviar a culpa do caos nas escolas. Então quer dizer que se o professor tiver auto-estima a educação irá melhorar? mesmo as salas de aulas sendo horríveis, um ensino arcaico e alunos com dificuldades seríssimas. Então quer dizer que se o policial tiver auto-estima a segurança pública irá melhorar? Mesmo sendo mal treinado, sem equipamento, e com seus superiores sendo corruptos ele irá prender os ladrões. Então quer dizer que se o médico tiver auto-estima a saúde pública irá melhorar? Mesmo os hospitais não tendo equipamento e nem profissionais suficientes para atender a populção toda.
Enquanto isso, a FAA (que descanse em paz) que poderia ser a luz no fim do túnel, desenvolvendo junto a prefeitura ações em prol da educação valenciana (pelo menos é o que uma faculdade faz pela sua cidade em lugares decentes) está dentro do caixão, só falta fechar a tampa.
Será que é tão difícil enxergar a realidade?
Que pelo menos na próxima palestra dancem o samba "to", de Tom Zé.
"Eu to ti explicando pra ti confundir..."

Felipe disse...

É por essa e por outras que estou feliz com a minha aposentadoria. até remocei!

Paula disse...

Sobre o comentário do "PMV", sua observação é tão limitada q dá pena. Provavelmente ñ é professor, ou no máximo algum pedagogo infeliz.

Nós, professores, somos desvalorizados, ridicularizados e a culpa ainda é nossa. Era bom todos os professores deixarem de ser professores msm, buscarem outras carreiras. Assim todo mundo teria q se auto-educar, pra q profissionais da educação, né?

Anônimo disse...

Pior que isso, só as dinâmicas das orientadoras... por isso sempre carrego um bom livro na bolsa.

Anônimo disse...

O mundo estava em crise, sofremos temporais, a violência não é privilégio de Valença e muito menos a falta de infra-estrutura.

Então, tenta se oferecer uma palestra dinâmica e motivadora para integrar educadores e iniciar o ano letivo de uma forma mais leve. E o que se vê? Educadores revoltados, que não abrem a cabeça para novas ideias, falta de educação sem limites e, aqui, pessoas que querem mudar o mundo.

A melhor forma para mudar o mundo é começar por você! Você que vê seus alunos em tais formas complicadas em sala de aula e reclama, mas eles estão lá, tentando aprender, para crescer e sair desta situação e mais, proporcionar uma vida melhor para seus próximos.

Será que os professores tem idéia das suas carências?

Sanger/Regnas disse...

A educação não se confunde, pelo menos au aprendi isso, com técnicas de terapia, relaxamento, de pensamento positivo e nem dançar como um hipopótamo.

Causa-me surpresa pensar que a secretaria municipal de educação (no segundo ano da atual gestão) acredite que as carências dos professores poderiam ser reduzidas com a dança do hipopótamo.

Pão e circo. Assim parece ser a forma como a educação é tratada em Valença. Para fazer isso, não é necessário diploma, nem estudo. Apenas mediocridade.

Pode deixar que quando a minha escola não tiver livro didático, merenda, sala de informática e outras coisas. Eu começarei a mudar: pensarei positivamente e farei a dança do hipopótamo para os meus alunos.

Afinal, tudo se resolve com a auto-estima...

Ps: Eu tenho uma carência. Carência de uma nova secretária municipal de educação. Já estou fazendo pensamento positivo.

Anônimo disse...

Sua carência é uma nova secretaria? Procure uma nova cidade para morar, outra escola para dar aula, e se surpreenda com sua descoberta: o mundo não é cor de rosa.

Sanger/Regnas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sanger/Regnas disse...

O anônimo se perdeu na sua falta de argumento. O que estou criticando é o mundo de moranguinho proposto pela palestra.

Ler toda a postagem é uma competência sempre bem vinda.

andrea disse...

ADOREI A POSTAGEM EO FECHAMENTO COM O VIDEO DOS TELETUBBIES FECHOU COM CHAVE DE OURO.