domingo, 9 de maio de 2010

Entrevista Libório Costa

Entrevista publicada na edição número 24 do VQ impresso.


Por Bebeto e Rafael Monteiro

Libório Costa é valenciano e botafoguense há 47 anos. Foi estudante da rede estadual e de 1975 a 1978 foi membro do grêmio estudantil do Theodorico Fonseca, onde ajudou a promover festivais intercolegiais de música, com participações inclusive de Clementina de Jesus e Rosinha de Valença. Fez um ano de Comunicação Social na SUSI (atual UNISUAM), abandonando o curso para ir trabalhar na Caixa Econômica Federal, de 1984 a 2001. Em 1982 trabalhou na Gazeta da Cidade, do Maguinho. Atualmente está na construção de sua monografia para graduação em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e ministra cursos de formação em cultura afro-brasileira para professores da rede municipal de ensino.

Monografia
Eu já pensava em fazer algum curso que trabalhasse a questão cultural, mas sem ser teatro etc. Fui então fazer Comunicação pensando em trabalhar na pesquisa ou jornalismo cultural. Mas, fui trabalhar na Caixa Econômica e larguei a Comunicação. Em 1992, a UFF abriu o curso de Produção Cultural e não perdi tempo. Atualmente estou trabalhando no levantamento, inventário do patrimônio imaterial, segmentando para a questão das pequenas áfricas dos sertão flumineiro, onde posso pegar o Caxambu, a Capoeira, as memórias da Clementina e Rosinha, os cultos afro e a história local da cultura afro-brasileira. Isso é a temática da minha monografia atualmente.

Valença e suas riquezas
As pessoas às vezes me perguntam se eu acho que tenho futuro aqui para trabalhar com a questão cultural. Eu falo que trabalho é o que não falta, o que falta é a cidade se convencer e reconhecer a gama de valores, os diamantes brutos que Valença tem escondidos debaixo do tapete colocado pelo poder público e as elites. Se convencer da riqueza do patrimônio imaterial como a Seresta e Serenata em Conservatória que são referência nacional com repercussões internacionais; do Jongo e Caxambu, sendo o Jongo do Quilombo São José da Serra uma referência como um dos mais próximos da raiz africana; da Folia de Reis; da Umbanda que já era cultuada aqui no final do século 19, como conta a própria Tia Maneca, que fez 100 anos ano passado, e atualmente é jogada pra debaixo do tapete; da Capoeira, que também já era praticada aqui desde o século 19, inclusive pelo pai da Clementina de Jesus; da memória da Clementina e Rosinha; das festas de São Jorge e por aí vai. Valença tem uma diversidade cultural que se expressa independente do poder público, apesar dele ter hostilizado muitas vezes alguns grupos e mestres dessas manifestações utilizando-os como plataforma eleitoreira. Mas nossa cultura sobrevive pela fé, tradição, força, mística, ancestralidade, e memória dessas populações que estão na periferia de Valença. É um universo muito rico. Precisa-se valorizar isso e fazer essas pessoas entenderem que além de terem valor cultural, hoje em dia isso pode-se transformar também num valor econômico, com incentivos da UNESCO, do Ministério da Cultura etc.

Folias de Reis
Sou apaixonado pela Folia de Reis e um monte de outras coisas. Mas, desde pequeno tenho paixão pela Folia de Reis. Minha mãe me levava pra Missa do Galo e via passar as Folias e achava aquilo muito mágico, com os cortejos, os palhaços fantasiados, um misto de admiração e medo, que muito adulto ainda tem, mas que já perdi há bastante tempo. É uma das grandes manifestações culturais que temos em Valença, apesar de muitas pessoas criticarem o crescimento da Folia de Reis, como tendo 40 palhaços, alegando que a tradição é ter 2 ou 3. Mas, desde minha época de criança, já existia Folia com 15, 20 palhaços. Isso é característico da cultura local, do seu dinamismo.

Não podemos querer colocar camisa de força nas manifestações culturais achando que elas devem ser do jeito que nós achamos que elas deveriam sejam. As “contaminações” servem para potencializar. Esta questão da garotada da Folia de Reis em Valença é muito forte, dentro desse universo dos palhaços, onde há crianças desde os 6 anos de idade até jovens na faixa dos 20. E a questão “pop” da Folia chama muito estes jovens, como é o caso da indumentária, dos revirões [texturas nas roupas], e eles sofrem ainda a influência de outras manifestações, como o funk e o rap. Eles não mudaram a tradição na Folia, só que os gritos de guerra incorporaram os gritos das galeras de bairro da cidade, um grito de identidade. Eles são funkeiros 365 dias no ano! Não é porque eles estão na Folia de Reis que deixarão de exercer a cultura híbrida do funk e Folia. Num intervalo entre Folias você vê palhaço fazer desafio usando o ritmo do Calango com o linguajar do rap. Valença é híbrida por natureza, essa mistura de Minas com Rio, dos índios com tropeiros e comerciantes, etc.

Educação e Cultura
Realizar o curso de formação de professores em cultura afro-brasileira, que dará subsídios à aplicação dos conteúdos da Lei 10.639 em Valença [a Lei 10.639 estabelece as diretrizes e bases para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira"], e estar ao mesmo tempo dentro da escola em contato com estes jovens, estão me abrindo um campo de pesquisa muito grande sobre a ligação entre educação e cultura. O importante não é só buscar a questão da África no Brasil, como a diáspora dos negros no mundo etc, mas também a história local destas pequenas Áfricas.

A cultura é muito importante na potencialização do processo de inserção das crianças e jovens de periferia dentro do processo educacional e na formação da cidadania. A escola tem de estar preparada a reconhecer e valorizar a cultura que a criança já leva para lá. Se você entrar em qualquer escola de Valença você vai encontrar uma diversidade cultural absurda. Você vai encontrar palhaço de Folia de Reis, Ogã de Umbanda, filhos de artesãos, além dos capoeiristas, pagodeiros, etc. Essas crianças são herdeiras de toda essa mistura feita no século 19, ou seja, o passado de Valença está fungando no cangote delas. E esse período está aí nas avós dessas crianças. O primeiro trabalho para a educação se aproximar da cultura é conhecer a realidade destas crianças e jovens, fazer o inventário, diagnosticar, mapear e ouvir os diversos grupos de fazedores de cultura da região para elaborar uma plataforma cultura, um plano de governo. Se não for assim, vira política particular de cultura, ações e eventos de acordo com o gosto particular de quem está exercendo a função de Secretário de Cultura ou do grupo que está ali.

Gestão cultural em Valença
Numa região como Valença onde a questão da memória e do acervo histórico são totalmente vazios, onde nunca existiu uma política de formação de acervo, onde não existe um museu municipal, e onde os que se dizem museus não seriam classificados assim por uma análise técnica, nota-se a falta de uma política da gestão cultural.

O poder público tem que apoiar as demandas que vêm da sociedade, mas tem que elencar as prioridades, se não vira balcão de negócios. Por outro lado, o poder público tem que ter políticas públicas de cultura! Existe, dentro da estrutura da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, um departamento de museologia e acervo (ou coisa assim) e não tem ninguém trabalhando nessa área! Então, existe um monte de ações a serem implementadas em várias frentes pra formar os acervos da memória valenciana e não existe nenhum trabalho sendo feito, a não ser atitudes isoladas como o pessoal do Diretório Acadêmico de Filosofia da FAA em apoiar o Sr. Sebastião do Museu Ferroviário. Valença está fazendo 200 anos de freguesia, 150 anos de cidade, 165 anos de município e não se vê no horizonte nenhuma preocupação em se trabalhar a memória e identidade! É complicado! Um povo que não preserva sua história, não vive o presente e não constrói o futuro. Se você não tem uma visão crítica do passado pra construir sua identidade no presente, você não irá construir futuro nenhum!

Essa tão falada crise que Valença vive é função de falta de identidade, da falta de reconhecer e valorizar a cultura da população. Na política, predomina a visão coronelista, tratando o povo como gado, não como sujeito de transformação e de objeto da democracia substantiva. E, por outro lado, Valença com um território enorme, uma economia fraca, e uma das piores distribuições do PIB no Estado do Rio, está partida. Valença está partida entre dois coronéis. Não existe unidade na diversidade. O povo, ao mesmo tempo que é vítima se vitimiza, e acaba criando uma situação de alimentação da sua própria desgraça, pois ele não consegue enxergar que enquanto se contentar em ser objeto da democracia formal, não irá construir sua cidadania, não conseguirá se mobilizar para transformar.

O Paulo Roberto Figueira escreveu sobre a questão da mobilização e que Valença vive uma crise e isso é unânime. Não existe perspectiva no momento: é unânime. A gente chega a conclusão que a velha mobilização é a única saída pra Valença. Mas como mobilizar? Essa é a questão.
Pontos de Cultura em Valença

Há dois anos procurei a Sônia Mattos, então Secretária Municipal de Cultura e Turismo, com manual e com os dois editais apresentando a ela que Valença tinha condições de conseguir ser contemplado com um Ponto de Cultura [iniciativas desenvolvidas pela sociedade civil, que firmaram convênio com o Ministério da Cultura, tornam-se Ponto de Cultura e o MinC fica responsável por articular e impulsionar as ações que já existem nas comunidades. O Ponto de Cultura não tem um modelo único, nem de instalações físicas, nem de programação ou atividade. Um aspecto comum a todos é a transversalidade da cultura e a gestão compartilhada entre poder público e a comunidade. Quando firmado o convênio com o MinC, o Ponto de Cultura recebe a quantia de R$ 185 mil para investir conforme projeto apresentado]. Existia a possibilidade que, se uma cidade apresentasse proposta para um certo número de Pontos de Cultura, criaria-se um Pontão de Cultura, podendo se fazer um Ponto para a Folia de Reis, outro para a Memória da Clementina etc. Ela não me deu resposta e no ano passado procurei a atual Secretária, Daniele Dantas, para conversar sobre as diversas ações do MinC para os municípios e que é necessário contrapartidas e compromisso do governo municipal. E também não obtive resposta. Não há interesse.

Turismo
Aqueles que são responsáveis pela gestão municipal têm uma certa miopia de perceber o valor da cultura valenciana, porque ainda estão presos a achar que o turismo cultural em Valença vai ser feito em fazenda do café. É pra ser feito em fazenda do café também, mas não somente lá. O Luiz Francisco, guia de turismo, tem uma frase muito boa: “um turismo cultural que é feito de fazenda, sem cidade”. O que precisa ser feito é um turismo cultural da cidade com as fazendas. O máximo que acontece fora das fazendas é uma refeição em algum restaurante, mas não movimenta o comércio local, as pessoas que vivem aqui não lucram nada com isso. Quem continua ganhando são os barões.

Conservatória através de autogestão, criou uma indústria turístico-cultural, através da iniciativa privada e da organização dos moradores. Hoje em dia recebe um fluxo de turismo enorme, está com Arranjo Produtivo Local, Festival de Cinema, turismo ufológico, e um excelente acervo histórico em seus museus, preservando, além da Seresta e Serenata, o samba de raiz, a música instrumental, o chorinho. Que Valença siga o exemplo de seu Distrito!

Fórum Municipal de Cultura
Estamos vivendo uma revolução silenciosa no Brasil que é provocada pelas políticas públicas do Ministério da Cultura: a rede Cultura Viva, inclusão digital, os Pontos de Cultura. Essas iniciativas - sejam de ONG´s, mídia comunitária, o Hip Hop, a Capoeira – possibilitam as pessoas a construírem suas cidadanias através de ações solidárias. Então, acho que Valença está precisando passar por isso. Vencer essa cultura da cidade partida, da fofoca da Rua dos Mineiros.

Daí entra a questão dos Fóruns - a gestão democrática da cidade – que é um processo em que Valença está atrasada há anos! As pessoas se mobilizam para conquistarem sua cidadania, deixarem de ser objeto para serem sujeito de sua história, aprenderem a falar e serem ouvidas, e formularem políticas para a cidade. Qualquer governo que assuma o poder tem que entender que eles estão ali para implementarem políticas nas diversas áreas que estejam em ressonância com o que a população quer! Os fóruns são pra isso. Ainda mais numa cidade como a nossa, onde existem alguns Conselhos Municipais, mas a maioria não está instalada, os fóruns servem para esta ligação entre poder público e sociedade. Exemplo seria um Fórum de Educação para aproximar escola e comunidade, ouvir se está se aproximando dos anseios da comunidade, se está atendendo as demandas daquele local. Numa cidade onde não há equipamentos culturais, as escolas são espaços para trabalhar oficinas artísticas, oficinas de memórias, os jovens entrevistando os mais velhos, recuperar as histórias que estão espalhadas e perdidas pelas periferias, principalmente após o fim da estrada de ferro, quando a população urbana cresceu absurdamente vinda do interior do município, de Santa Rita de Jacutinda, Rio Preto etc. Toda essa cultura rural ainda com traços fortes de afro-descendentes, uma arqueologia humana a ser feita em Valença incrível! O apagamento da história do índio em Valença intencionalmente, encontrar os remanescentes dos Coroados que existem por aí. Tem muito trabalho.

Precisamos criar a cultura da unidade dentro dos seguimentos dos produtores culturais, das bandas de rock, dos mestres de Folia de Reis, do pessoal das escolas de samba, dos grupos de capoeira, artesãos, poetas, seresteiros, pessoal de teatro e por aí vai, e partir para o que une e deixar de lado o que diverge, para montarmos uma rede maior, que é o Fórum Municipal de Cultura e o Conselho Municipal de Cultura. As pessoas precisam saber o que elas realmente querem e precisam, fazerem seus autodiagnósticos, e daí partirem para a discussão nestes fóruns e cobrarem seus direitos culturais, que estão na Constituição, e formularem políticas públicas de cultura para Valença. Não é apoio nem favor, é direito. Chega de política de evento pra gente bater palma e o artista voltar pra sua cidade. Onde está o apoio para o surgimento de novos talentos locais. Será que se a Rosinha nascesse hoje ela teria espaços como teve na Rádio Clube de Valença e fazendo programas de auditório? Se ela nascesse hoje ela seria a Rosinha de Valença que foi? Quantos talentos estão espalhados pela cidade e não têm oportunidade de se expressar, de evoluírem nos seus fazeres artísticos.

Valença pode ser um grande centro de indústria criativa, basta querer! O momento de crise é o momento de surgirem as idéias. O Fórum Municipal de Cultura, e os outros fóruns, são os espaços onde as diferentes idéias se unem para a construção de uma plataforma conjunta, que atenda a essa diversidade cultural. Não existe receita de bolo para Valença, o que precisamos é mobilizar para o encontro.

6 comentários:

Anônimo disse...

Fala Libório: "Mas como mobilizar? Essa é a questão."
Foram nomeados recentemente Conselheiros Municipais de Cultura e de Habitação sem a devida publicidade...

Libório disse...

Ao anônimo:

Muita coisa se passou desde que essa entrevista foi publicada.
É triste reconhecer que não avançamos nada em matéria de gestão cultural no município.
As potencialidades da cultura local continuam aí.
Assim como a miopia daqueles que ao invés de desenvolverem uma política pública de cultura, continuam com sua visão mausoléa e particular.
Confesso que entreguei os pontos.
Depois da experiência que vivi na Conferência Anti-democrática de Cultura realizada no final de 2009, não vejo luz no fim do túnel e nem sei como mobilizar. Depende muito mais dos atores culturais locais que a meu ver não estão muito interessados numa transformação de fato.
Se foi "nomeado" algum Conselho de Cultura também não estou sabendo. Deve ter sido debaixo dos panos e mais uma vez sem o empoderamento da diversidade cultural valenciana.
No mais só tenho a agradecer ao blog do VeQ pelo espaço que sempre me ofereceram e torcer para que continuem sendo a voz dissonante da mesmice que nos assola.

Anônimo disse...

Para que o mal triunfe, basta que os bons entreguem os pontos...
Honra seja feita, isto é um mérito deste des-governo municipal.

Negro Gunga disse...

Visão mausoLéa de cultura alternativa,rsrs, eu rí disto!

E viva a terapia holística de auto-ajuda trancendental!!!

helvia disse...

Grande Liborio, tenho te procurado, rastreado, lançando SOS neste mundinho cibernético, eis que enfim te acho, brilhante e criativo como sempre.

helvia disse...

Lee Bolinho, cadê vc menino, tenho te procurado, vasculhad, lançado SOS por todo mundinho vrtual, só agora consegui te ter um puco
Bjus de Luz!!!!!
Abraços carinhosamente encantados