terça-feira, 7 de outubro de 2008

Auto-estima ou punição?

Fui, há duas semanas, conhecer o projeto de uma amiga, que ministra oficinas de jornalismo para um grupo de alunos da Escola Estadual Anacleto de Medeiros, que funciona dentro do presídio Evaristo de Moraes, no Rio de Janeiro. Lá, acompanhando o processo de produção do jornal, alguns detentos liam os textos que produziram. Uns reportagens, outros artigos. Abaixo, reproduzo um artigo escrito pelo detendo Sérgio Miranda de Almeida, que foi publicado também no site do Observatório de Favelas.

Auto-estima ou punição?

Por Sérgio Miranda de Almeida*

Sinto que ao participar do espaço que o colégio estadual Anacleto de Medeiros oferece aos detentos do Evaristo de Morais, minha auto-estima, como a de todos que participam das atividades, cresce a cada dia. Minha esperança aumenta e meus olhos conseguem enxergar oportunidades que há anos atrás eu não veria dentro do sistema penitenciário. Anos que, se formos analisar, não estão distantes da realidade atual em que nós, internos do sistema penitenciário, vivemos.

A verdade é que, olhando para outros presídios do estado do Rio de Janeiro e dos demais estados, verificamos que o presídio Evaristo de Morais é um dos poucos que tem uma direção que permite atividades para que o interno supere a ociosidade, aprenda coisas novas, acrescentando conhecimento ao interno e criando um novo caminho na vida daquele que um dia cometeram algum tipo de crime ou delito.

Acredito que estamos em um século em que devemos começar a pensar em recuperação e não só em punição. Se a punição ainda for algo primordial em nossa sociedade, então devemos começar a punir as autoridades responsáveis pela ordem de nosso país. Autoridades que permitem, por exemplo, a prisão de uma menina de 15 anos dentro de uma cadeia para maiores do sexo masculino, na qual foi estuprada e se prostituía em troca de alimento. Ou ainda, autoridades que prendem uma mãe que ao levar sua filha para o hospital, foi acusada de colocar cocaína na mamadeira da criança, mas depois de quase dois anos em reclusão foi liberada, após ser provado que não havia cometido crime algum.

Casos em que a justiça errou gravemente e não foi punida, mas sim eximida de qualquer responsabilidade. Por outro lado, as pessoas que sofreram com estes erros não tiveram nenhum respaldo do Estado nem da própria sociedade que se faz de cega, surda e muda, assim como o judiciário. Não houve da parte de ninguém, uma ajuda para que estas pessoas pudessem reaver parte de sua dignidade que foi maculada. Se é que casos como esses ainda permitem a um ser humano se reabilitar.

Se, em pleno século XXI, devemos acreditar na punição e não na possibilidade de recuperação, devemos em primeiro lugar punir nossa justiça brasileira. Justiça que não segue o que nossa Constituição descreve como os direitos do cidadão e a qual determina que somos todos inocentes até que se prove o contrário. Devemos, por fim, punir a todos aqueles que não acreditam que o marginalizado pode realmente sair das margens e se reintegrar socialmente. Devemos de fato punir a punição.

*Sérgio Miranda de Almeida é detento e cumpre pena no presídio Evaristo de Morais

7 comentários:

Anônimo disse...

o presidio de valença esta muito carente de atividades para os detentos.

meu primo ja esteve preso, e qnd eu ia visita-lo percebia o processo de degradaçao dessa instituiçao falida, q nao recupera ninguem

capilo disse...

numa das visitas que fiz ao Evaristo de Moraes, fiquei sabendo de muita gente de Valença por lá. Infelizmente.

Jacutinga disse...

O presídio não é uma instituição..
a instituição é o Estado (não podemos esquecer), a política de segurança pública do Estado (Estado do Rio de Janeiro e Governo Federal) e um não planejamento das obrigações e deveres do Estado.. como por exemplo, as vezes falamos que o Estado é ausente, na verdade não.. Ele (e nesse caso não é Deus e nem a mão invisível) é presente seja nas péssimas escolas, nos péssimos hospitais, nas péssimas condições de vida e habitação... e nos 8 milhões de reais do caveirão do ar, nos milhões do mega caveirão, etc...

E aí, quando temos consciência - das nossas e dos outros - das condições materiais de existência.. é que nos posicionamos..

Então,

de que lado estamos?

Anônimo disse...

Mundando de assunto:

olhem ai, isso que é rejeiçao.

uma cidade teve 92% de votos nulos.

http://g1.globo.com/Eleicoes2008/0,,MUL789344-15693,00-COM+DOS+VOTOS+NULOS+CIDADE+MINEIRA+PODE+TER+NOVAS+ELEICOES.html

Anônimo disse...

e o joel pereira, nao foi eleito?

mulher ativa disse...

Muito bom, Capilo. Precisamos muito bater nessa tecla: "auto-estima". Fomentar talentos e desconstruir a idéia negativa que o brasileiro foi levado a ter de si mesmo (tudo que é bom vem de fora;da cidade ou do país).Parafraseando Caetano:"Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome." Reintegração à sociedade deve acontecer para que não se chegue a cometer crimes.

mulher ativa disse...

Em tempo:Assisti ontem no "Roda Viva", na Cultura. Foi com o sociólogo Alberto Carlos Almeida,que fez uma análise de conjuntura "Eleições 2008" interessantíssima. O livro dele " A Cabeça do Eleitor" me pareceu muito bom. E está R$19,00 no site da Saraiva. Vai aí a dica. Mulher Ativa tb é utilidade pública (no bom sentido, claro).
Abraços agradecidos por este blog e aquele jornal, tão bons!!!!